O princípio Inipi…

O simples banho de todos os dias pode redirecionar nossas vidas, ao nos fazer refletir – em um momento só nosso, sobre as melhores coisas da vida: aquelas que nos tocam e nos envolvem como uma nuvem de vapor.

  

O que são as lembranças do que passou e o que estamos fazemos agora, senão momentos dissolvidos em incontáveis partículas? Reflita sobre isso entrando no banho diário e deixe que a vida possa fluir livremente. 

Procure trazer sua alma à frente de sua mente, pensando em tudo que deu certo hoje e nas coisas boas que deseja para amanhã. Permita, então, que a ordem do universo realinhe seu corpo e permita-se sentir um toque de expansão pessoal. Simples, não é?

 

Em um banho assim fazemos contato com a mágica da construção, para atingirmos outro estágio. Prontos até para um novo ciclo, uma vez feito o inventário de tudo de que existe à nossa volta, valorizando o que somos e contabilizando o essencial.

Podemos praticar isso, diáriamente: lembre-se, por exemplo, da noite passada e de como se preparou para dormir. Você pode ter feito uma boa leitura, quem sabe aquela que fez você exteriorizar sentimentos e não interiorizar informações, ou terminado de assistir a um bom filme, no qual o tema fluiu, as imagens eram belas e trilha sonora, deliciosa. Algo que foi tratado ali, esvaziando a mente para descansar.

Além disso, talvez você tenha tomado um bom banho. Uma rápida ducha, que o tenha revigorado, ou mesmo de imersão, que o tenha relaxado. Seja lá como tenham sido, aqueles momentos foram só seus. Excelentes oportunidades de auto-conhecimento. Simples também.

A palavra inipi - em oglala sioux (língua da nação indígena norte americana Lakota, significa: “útero da Terra”. Na verdade referia-se a um ritual sagrado, uma sauna, onde os guerreiros da tribo se preparavam para a vida, procurando refletir sobre si mesmos, diáriamente.

Pelo simples contato com o vapor, síntese de todos os elementos e despindo-se completamente, inclusive de seus egos, procuravam sentir-se como ursos, extraordinários animais que depois de hibernar despertam renovados para um nova Estação. Ouviam bambús batendo uns contra os outros – em som parecido ao de água corrente e símbolo da flexibilidade. E imaginavam a direção Oeste, onde o sol se põe, para adquirir - pela instrospecção: confiança e responsabilidade. 

 

O que não é simples em tudo isso, pelo menos para nós – atarefados do mundo moderno, é a extraordinária determinação que tinham os índios de querer se renovar a cada dia, seguindo o exemplo da Natureza. Mas, dá para aprender, se quisermos isso.

Caio Eduardo Ferreira do Amaral

cefamaral@terra.com.br

As três penas de prata

Em uma de minhas viagens de trabalho, vivi algum tempo entre os Waimiri-Atroari, a fascinante nação indígena cujo território se estende por uma imensa área situada na região nordeste do Amazonas e sul de Roraima, a 250 km de Manaus, exatamente na Linha do Equador.

Foi com aquele povo extraordinário que comecei a entender os três pontos básicos, para uma vida extraordinária também: as direções que podemos seguir, os momentos únicos que devemos aproveitar e o que é absolutamente essencial.

Para os índios, o mundo se apresenta como um grande espelho multifacetado, que faz brilhar a luz em diferentes intensidades a cada ciclo das Estações. Podemos realmente aprender com eles e transformar nossas vidas em uma jóia reluzente, como se as penas, que direcionam as flechas com precisão e garantem a sobrevivência com dignidade, fossem de prata. Elas apresentam utilidade, simplicidade e nobreza, ao mesmo tempo.

Além disso podemos sentir, em tudo o que fazem, os poderosos significados do número 3: comunicação, criatividade e arte…

Talentos nativos, deslumbrantes e legendários.

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Um dia ‘choveu’ muita pedra e todos pensaram que o mundo ia acabar, no entanto havia uma casa cujo esteio central era de piria (pau d’arco), madeira muito dura que agüentou as pancadas das pedras. Nessa maloca moravam – em perfeita harmonia, várias famílias do povo Kinja e a partir delas surgiram os descendentes da tribo”.

Nessa lenda dos  tempos, observa-se um conceito essencial: a casa; mydy taha, na língua kinja iara: “grande casa”. Única, bem construída e circular; um espaço sagrado que inclui também um jardim.

A casa, na verdade, somos nós. Se ela é forte, tem fundação adequada, sobrevivemos a tudo. Na medida em que fortalecemos nosso eu, tudo em volta se harmoniza. Como as famílias do povo Kinja que viviam em “perfeita harmonia”.

Sabemos disso quando estamos em um momento de graça, e vemos que tudo dá certo, que as pessoas se aproximam de nós de maneira positiva, e que de nossa interação nascem coisas boas.

As reflexões aqui feitas podem nos fazer lembrar que é necessário se harmonizar com o Planeta e com aqueles que estão à nossa volta. Precisamos ser de fato uma casa firme de pau d’arco, se quisermos ir para a frente em busca do sucesso – no melhor sentido do termo: momentos que se sucedem, saudáveis, iluminados e engrandecedores.

Temos a capacidade de projetar sonhos

no espaço, como realidade”.

“Os antigos da tribo eram chamados de Nysakome (feminino) e Tahkome (masculino). Tahkome também é um termo que pode se referir a um passado muito distante… Ao tempo em que todos conviviam em igualdade de condições e eram todos humanos, apesar de alguns terem poderes sobrenaturais”.

Muitos se perguntarão sobre o motivo de nos referirmos aos índios e a seus costumes e crenças, para fazer uma reflexão sobre estilo de vida. Na sua pureza, são essenciais sim… Masculino e feminino. Igualdade de condições apesar de alguns serem especiais. E o mundo não é assim? Se entendêssemos o que nos iguala – nossa capacidade de pensar e de criar - e o que nos diferencia, ou seja, nossa história desta ou de outras vidas, então já teríamos a base para a felicidade. Mas sabemos quem somos?

Temos tempo suficiente, só é preciso parar

e mudar de freqüência”.

“Nesse tempo passado não havia animais e as pessoas viviam das frutas e tubérculos existentes na natureza. Mawa, que também era gente, vivia na Terra e fornecia aos Kinja todas a provisões necessárias. E foi Mawa um dos responsáveis por transformar a gente, que transgredia as regras, em animais ou em alguns produtos cultivados em seus próprios roçados…

Um dia, cansado da convivência na Terra e para impedir o Céu de cair, Mawa pediu ao jaboti para flechar o céu para que se formasse uma escada e assim se tivesse acesso àquele lugar. Assim, foi ligada a Terra ao Céu e Mawa conseguiu chegar ao espaço superior, estabelecendo naquele local a sua moradia. Alguns tentaram subir também, mas Mawa cortou a corda e os derrubou a todos. Os que ficaram pendurados nas árvores transformaram-se nas diversas espécies de macacos”.

Os desafios que diariamente enfrentamos nos fortalecem, nos abrem o Céu. Cada um de nós reage diversamente e, portanto, enfrenta resultados diversos também. Mas é esse caminho múltiplo, dinâmico, cheio de desafios, que nos faz grandes, que nos leva a atingir o Céu. Quando, no dia a dia, encontramos Mawa, compreendamos que estamos aqui para passar por histórias, situações, desafios e, a partir disso, nos tornarmos identidade, e com ela atingirmos o Universo.

É impossível ter maus pensamentos

quando nos sentimos bem.

Os índios nos mostram também como identificam o espaço e o utilizam como se tivessem, eles próprios, criado a maravilhosa feng-shui. Ciência dos antigos chineses que estuda a Natureza e explica tudo o que faz sentido para o Universo.

Exemplo disso é a disposição da  mydy taha na clareira da floresta: exatamente no centro, atraindo a força da saúde física. E a porta de entrada, única conexão com o mundo exterior: aberta para o Leste e captando a energia para a família, como que disposta assim por um Ba-guá. A sintonia perfeita com a clareza do dia, a iluminação dourada da manhã e a harmonia da Roda Medicinal.

Ao se buscar a harmonia da vida – pelo reconhecimento da paisagem que nos cerca, podemos determinar os locais que apresentam energia de perigo, ou de segurança. Aqueles que provocam sensações desagradáveis de medo, ou aqueles que nos fazem sentir extremo prazer… Sempre caminhando em frente e redescobrindo a beleza que existe em tudo.

Para deixar tudo ainda mais belo, diríamos: – não se aborreça quando estiver enfrentando um “dia de índio”… De selvagens eles não têm nada, a não ser pela questão semântica de viverem na selva. Além disso, a experiência seria a sua escada para o Céu. E se isso não parece ser o melhor, lembre-se: você encontrará nova solução e todo este caminho fará parte de sua identidade.

Caio Eduardo Ferreira do Amaral

cefamaral@terra.com.br