Em uma de minhas viagens de trabalho, vivi algum tempo entre os Waimiri-Atroari, a fascinante nação indígena cujo território se estende por uma imensa área situada na região nordeste do Amazonas e sul de Roraima, a 250 km de Manaus, exatamente na Linha do Equador.
Foi com aquele povo extraordinário que comecei a entender os três pontos básicos, para uma vida extraordinária também: as direções que podemos seguir, os momentos únicos que devemos aproveitar e o que é absolutamente essencial.
Para os índios, o mundo se apresenta como um grande espelho multifacetado, que faz brilhar a luz em diferentes intensidades a cada ciclo das Estações. Podemos realmente aprender com eles e transformar nossas vidas em uma jóia reluzente, como se as penas, que direcionam as flechas com precisão e garantem a sobrevivência com dignidade, fossem de prata. Elas apresentam utilidade, simplicidade e nobreza, ao mesmo tempo.
Além disso podemos sentir, em tudo o que fazem, os poderosos significados do número 3: comunicação, criatividade e arte…
Talentos nativos, deslumbrantes e legendários.
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“Um dia ‘choveu’ muita pedra e todos pensaram que o mundo ia acabar, no entanto havia uma casa cujo esteio central era de piria (pau d’arco), madeira muito dura que agüentou as pancadas das pedras. Nessa maloca moravam – em perfeita harmonia, várias famílias do povo Kinja e a partir delas surgiram os descendentes da tribo”.
Nessa lenda dos tempos, observa-se um conceito essencial: a casa; mydy taha, na língua kinja iara: “grande casa”. Única, bem construída e circular; um espaço sagrado que inclui também um jardim.
A casa, na verdade, somos nós. Se ela é forte, tem fundação adequada, sobrevivemos a tudo. Na medida em que fortalecemos nosso eu, tudo em volta se harmoniza. Como as famílias do povo Kinja que viviam em “perfeita harmonia”.
Sabemos disso quando estamos em um momento de graça, e vemos que tudo dá certo, que as pessoas se aproximam de nós de maneira positiva, e que de nossa interação nascem coisas boas.
As reflexões aqui feitas podem nos fazer lembrar que é necessário se harmonizar com o Planeta e com aqueles que estão à nossa volta. Precisamos ser de fato uma casa firme de pau d’arco, se quisermos ir para a frente em busca do sucesso – no melhor sentido do termo: momentos que se sucedem, saudáveis, iluminados e engrandecedores.

“Temos a capacidade de projetar sonhos
no espaço, como realidade”.
“Os antigos da tribo eram chamados de Nysakome (feminino) e Tahkome (masculino). Tahkome também é um termo que pode se referir a um passado muito distante… Ao tempo em que todos conviviam em igualdade de condições e eram todos humanos, apesar de alguns terem poderes sobrenaturais”.
Muitos se perguntarão sobre o motivo de nos referirmos aos índios e a seus costumes e crenças, para fazer uma reflexão sobre estilo de vida. Na sua pureza, são essenciais sim… Masculino e feminino. Igualdade de condições apesar de alguns serem especiais. E o mundo não é assim? Se entendêssemos o que nos iguala – nossa capacidade de pensar e de criar - e o que nos diferencia, ou seja, nossa história desta ou de outras vidas, então já teríamos a base para a felicidade. Mas sabemos quem somos?

“Temos tempo suficiente, só é preciso parar
e mudar de freqüência”.
“Nesse tempo passado não havia animais e as pessoas viviam das frutas e tubérculos existentes na natureza. Mawa, que também era gente, vivia na Terra e fornecia aos Kinja todas a provisões necessárias. E foi Mawa um dos responsáveis por transformar a gente, que transgredia as regras, em animais ou em alguns produtos cultivados em seus próprios roçados…
Um dia, cansado da convivência na Terra e para impedir o Céu de cair, Mawa pediu ao jaboti para flechar o céu para que se formasse uma escada e assim se tivesse acesso àquele lugar. Assim, foi ligada a Terra ao Céu e Mawa conseguiu chegar ao espaço superior, estabelecendo naquele local a sua moradia. Alguns tentaram subir também, mas Mawa cortou a corda e os derrubou a todos. Os que ficaram pendurados nas árvores transformaram-se nas diversas espécies de macacos”.
Os desafios que diariamente enfrentamos nos fortalecem, nos abrem o Céu. Cada um de nós reage diversamente e, portanto, enfrenta resultados diversos também. Mas é esse caminho múltiplo, dinâmico, cheio de desafios, que nos faz grandes, que nos leva a atingir o Céu. Quando, no dia a dia, encontramos Mawa, compreendamos que estamos aqui para passar por histórias, situações, desafios e, a partir disso, nos tornarmos identidade, e com ela atingirmos o Universo.

“É impossível ter maus pensamentos
quando nos sentimos bem”.
Os índios nos mostram também como identificam o espaço e o utilizam como se tivessem, eles próprios, criado a maravilhosa feng-shui. Ciência dos antigos chineses que estuda a Natureza e explica tudo o que faz sentido para o Universo.
Exemplo disso é a disposição da mydy taha na clareira da floresta: exatamente no centro, atraindo a força da saúde física. E a porta de entrada, única conexão com o mundo exterior: aberta para o Leste e captando a energia para a família, como que disposta assim por um Ba-guá. A sintonia perfeita com a clareza do dia, a iluminação dourada da manhã e a harmonia da Roda Medicinal.
Ao se buscar a harmonia da vida – pelo reconhecimento da paisagem que nos cerca, podemos determinar os locais que apresentam energia de perigo, ou de segurança. Aqueles que provocam sensações desagradáveis de medo, ou aqueles que nos fazem sentir extremo prazer… Sempre caminhando em frente e redescobrindo a beleza que existe em tudo.
Para deixar tudo ainda mais belo, diríamos: – não se aborreça quando estiver enfrentando um “dia de índio”… De selvagens eles não têm nada, a não ser pela questão semântica de viverem na selva. Além disso, a experiência seria a sua escada para o Céu. E se isso não parece ser o melhor, lembre-se: você encontrará nova solução e todo este caminho fará parte de sua identidade.

Caio Eduardo Ferreira do Amaral
odivaldo siviero disse,
Novembro 14, 2007 às 4:41 pm
Como a natureza é sábia, bem como estes habitantes que aprenderam a respeitá-la.Seus conhecimentos atravessam as fronteiras do conhecimento.
Parabens pela convivência e aprendizado como homem branco .
Cada pena tem o seu significado espiritual e material.
Fico no aguardo de novos conhecimentos.
Caio Eduardo Amaral disse,
Novembro 15, 2007 às 12:33 am
Muito agradecido Odivaldo.
Sua presença enriqueçe este espaço…
Que você possa seguir em direção ao Leste também.
E, com certeza, lá alcançar a luz que merece.
Um abraço
Caio
Rodrigo Leão disse,
Novembro 22, 2007 às 11:26 pm
Caio,
Desculpe o trocadilho, mas esse texto é um banho de sabedoria.
Vou visitar seu blog sempre.
grande abraço,
Rodrigo Leão
Caio Eduardo Amaral disse,
Novembro 23, 2007 às 11:49 am
Seus trocadilhos na verdade são sua marca Rodrigo…
Sempre inteligentes e deliciosamente divertidos. De fato, nas coisas mais simples da vida é que podemos encontar aquilo que quase não temos mais: prazer pela vida! Tesão, como dira você.
Um abraço forte para meu amigo, além de tudo, artista.
Caio Eduardo
vado disse,
Dezembro 4, 2007 às 2:42 pm
Cara adorei o teu blog, estarei sempre dando uma olhada com mas calma nele a tarde, mas sou amanates das coisas que vc posta nele, essa cultura indigina, os elementos da natureza tudo isso me fascina
Caio Eduardo Ferreira do Amaral disse,
Dezembro 4, 2007 às 4:41 pm
Que bom que gostou Vado!
Seja sempre bem-vindo, meu amigo de Sergipe.
Sensibilidade…
Este espaço é, de fato, para pessoas como você.
Grande abraço.
Caio
Mirian Menezes disse,
Dezembro 12, 2007 às 1:11 pm
Caio, espetacular!! Essa é a palavra!
Quanta riqueza na sabedoria indígena. É algo que me fascina e me sinto fortemente atraída.
Obrigada por compartilhar um pouco dessa sabedoria que nos liga à verdadeira essência, ao entender e respeitar todos os ciclos que passamos aqui na Mãe-Terra.
As imagens também estão belíssimas!!
Abraço, Mirian
Caio Eduardo Ferreira do Amaral disse,
Dezembro 12, 2007 às 1:27 pm
Obrigado Mirian!
Sua presença enriquece o meu trabalho.
Vou lá te visitar no seu site, sempre que puder.
Mantemos contato.
Abraço
Caio Eduardo
Odivaldo Siviero disse,
Abril 20, 2009 às 8:23 pm
Grande Caio,
Acompanho seu bloog, desde sua fundação,.
A cada dia que passa, voce nos abrilhanta com suas experiencias , conhecimentos e imagens .
Parabéns, sucesso e muita , muita luz.
Odivaldo Siviero